sábado, 27 de junho de 2009

Tragos aedia

A arena estava lotada quando abriram-se as cortinas. Mas os aqui exaltados líderes da primeira fase haviam sofrido um baque na véspera da decisão. O maestro dos Amigos do Tirão, Fabrício, não poderia jogar as finais devido a uma proposta irrecusável de trabalho. E o time foi dormir com a péssima notícia. Mais uma vez traídos por nossa condição de formados com outras prioridades. Nosso calcanhar de Aquiles. Nossa convulsão de Ronaldo. Nossa água de Branco. Nossa cabeçada de Zidane. Nosso pênalti de Marco Antônio Boiadeiro. Nosso meião de Roberto Carlos...

Foi então que a aurora, de dedos em rosa, amanheceu matutina. E aquele vazio na quadra. Nem mesmo o reforço de Minero, trazido às pressas das veredas de Minas Gerais, pôde suprir o espaço vago no comando do time. O nervosismo era mais que aparente. E mais uma vez, os Amigos do Tirão caíram nas quarta-de-final. Pela frente, um adversário famoso por - apesar da estatura de seus jogadores - crescer na reta final dos torneios. E a Seleção Canarinho aproveitou a apatia dos Amigos para construir uma vitória tranquila e seguir novamente para disputar um lugar entre os quatro primeiros do campeonato, batendo um já abatido rival.


Restava aos Amigos do Tirão a disputa da semi-final do Interior, que calhou ser justamente contra os vice-campeões do torneio passado, os Ornitorrincos Alados. Juntando os cacos da derrota, a equipe tentou se concentrar para competir pelo título já conquistado pelo grupo há um ano, no FAC-GOL 2008. Mas o efeito anestésico da sequência dupla de desgostos ainda pairava no ar como uma locomotiva prestes a cair sobre a cabeça dos jogadores, em especial do capitão do time.

O resultado: duas falhas homéricas do goleiro improvisado Tirão colocaram seus Amigos diante de um precipício, a um passo da segunda eliminação do dia. Mas tal e qual as histórias contadas pelo cego bardo grego, o destino - digamos, a fortuna - reservara para o segundo tempo um capítulo especial para aquela que seria a partida mais emocionante de todo o campeonato. Pois a trágica comédia encenada diante da torcida atingiu os brios dos atletas de amarelo, enquanto a insustentável continuidade do capitão do time entre as traves deu lugar a um dos heróis do jogo.

Com a cabeça erguida, a equipe jogou como nunca: aguerrida, brava, furiosa, raçuda, até mesmo violenta. Na força e na trombada, heroicamente chegou ao empate. Na loucura e no desespero, milagrosamente salvou uma bola em cima da risca, na grande defesa no novo goleiro Tito. Nos nervos à flor da pele, injustamente perdeu Minero, expulso ao ser hostilizado pelo guarda-metas adversário, também premiado com o cartão vermelho.

Fim de partida. Decisão por pênaltis. Invasão da quadra pela torcida. Tensão. União. O hino dos Amigos do Tirão cantado em uníssono pelos outros times. A memorável intervenção pouco lisonjeira de Nando por sobre os atletas ajoelhados em profissão de fé. Cobranças alternadas, erros trocados, defesas devolvidas, bolas no fundo da rede. Na quarta cobrança dos Ornitorrincos, a confirmação. A esfera por cima do travessão. Classificados para a decisão de 5º lugar. Uma prova de que a equipe foi batizada com o nome mais apropriado dentre os possíveis. Amigos do Tirão. E não apenas ele.


Mas novamente o destino - sempre ele - que tantas peças prega aos desavisados, ainda resguardava emoção para o último ato dessa epopéia. E o desfecho da trama - ora vejam - fez cumprir uma profecia. Sim, Amigos do Tirão e Laranja Mecânica se enfrentariam de novo. Como em todos os FAC-GOLs da era contemporânea, os arquirrivais da Arena Banco Real se degladiariam duas vezes no torneio. Mas, ainda sofrendo os efeitos psicológicos da montaha russa emocional daquela manhã, os reis do derby faquiano não encontraram seu jogo diante de uma equipe determinada a conquistar o título do interior, após dois vices consecutivos. Os alaranjados recortaram um pouco a distância no retrospecto - agora 4 a 2 para os aurinegros.


Se o 6º lugar dos Amigos do Tirão pode desagradar gregos e troianos, ao menos a recordação deste sábado elevará a memória dos combatentes. Como nos grandes contos helênicos da antiguidade. Pois a glória está reservada para aqueles, apesar de todos os prognósticos em contrário, entram em campo. E morrem lutando.

Confira a tabela e o resultado final aqui.

2 comentários:

  1. "encima" é separado. :D
    E até a próxima edição, esperando alguma contratação de peso que possa revezar com o Fabrício.

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  2. Foi mal por não ter ido lá, é que realmente foi uma proposta de trabalho irrecusável.
    Fiquei até me sentindo mal depois desse drama todo no blog...haueueahuehua...que exagero, heim!
    Mas o campeonato foi massa...a cada FacGol os Amigos do Tirão sobem mais um degrau...logo logo chegaremos ao topo.
    Valeu...até a próxima!



    bito.

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